Cartilha pede que homens não se vistam de mulher no Carnaval em BH

Guia dá dicas para evitar o preconceito; orientações que foram publicadas no Diário Oficial dividem opiniões

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Como o Carnaval é a festa da inversão de valores, em que o bobo da corte faz piada com o rei, vestimentas e letras de música que incitam o constrangimento foram, por muito tempo, minimizadas.

Agora, não mais: se vestir de índio não pode. De cigano, também não. Nega maluca e enfermeira sensual? Nem pensar. Iemanjá, de jeito nenhum. Neste ano, homem vestido de mulher também entra na lista de fantasias que devem ser evitadas pelos foliões, de acordo com uma nota publicada nesta quinta-feira (13) no Diário Oficial do Município (DOM) de Belo Horizonte.

A cartilha para práticas não racistas no Carnaval é de iniciativa de autoria do Conselho Municipal de Promoção de Igualdade Racial (Compir). O texto traz uma série de orientações para a adoção de ações não discriminatórias durante a folia, que passam pelas fantasias, marchinhas e, claro, atitudes. Em meio ao alerta, o politicamente correto disputa espaço com a irreverência dos blocos, e o debate divide opinião.

De acordo com a secretária executiva do Compir, Cássia Cristina da Silva, a medida foi tomada após uma série de denúncias feitas por pessoas que se sentiram ofendidas com algumas representações. “Não estamos moldando o comportamento de ninguém. Não é uma ordem, é uma orientação para que todos possam se divertir e não discriminar ninguém. Os anos estão mudando e essa é uma ótima oportunidade para se aprender e se desconstruir”, ressalta.

Tradição

E por que se vestir de mulher não pode? Segundo a cartilha, “além de ser machista e desrespeitoso com as mulheres”, a fantasia é “preconceituosa com as pessoas trans e apenas reforça os estereótipos de gênero

Alguns homens vestidos de mulher apresentam o feminino de forma muito caricatural, de forma ridícula. Acaba mantendo a lógica de inferiorizar o feminino. No caso de nós, pessoas transexuais, gera um constrangimento. Eu sou uma mulher travesti, transexual, e no Carnaval quando vou a padaria as pessoas perguntam se estou fantasiada, eu estou apenas indo comprar pão. Assim é a minha identidade, não é fantasia”, destaca a criadora da ONG Transvest, Duda Salabert.

Comemorando 45 anos de existência, o tradicional bloco de pré-Carnaval Banda Mole espera atrair uma multidão de foliões sem deixar para trás a principal característica da banda: os homens vestidos de mulher. “Não vamos seguir a orientação. Repudiamos e lutamos contra qualquer tipo de preconceito, mas desde que não haja uma série de bobagens descabidas e exageradas. Querem um Carnaval engessado? O Carnaval não tem regra. A regra é bom humor”, destaca um dos fundadores da Banda Mole, Luíz Mário Jacaré.

Prática de “blackface” também deve ser eliminada, diz nota

Você talvez já tenha ouvido falar sobre o “blackface” – quando a imagem do negro é caricata e ridicularizada. Mas é justamente na época de folia e bloquinhos que a prática retorna com força. Pelas ruas, é comum encontrarmos pessoas fantasiadas de “Nega Maluca”, colocando uma peruca afro, passando batom vermelho e, às vezes, pintando o corpo e o rosto de preto. “O uso de perucas ‘blackpower’, ‘nega maluca’, ‘dreadlocks’ e toucas com tranças (…) se traduzem como desrespeito aos símbolos da resistência negra”, cita a cartilha publicada no “Diário Oficial do Município”.

De acordo com o texto, a nota visa fomentar um ambiente de respeito e sem práticas racistas. O texto será compartilhado com os blocos e demais parceiros no Carnaval.

De O Tempo via Caicó na Rota da Notícia

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